Cena 'forte' da novela "Pátria Minha" gerou polêmica e causou represálias à Globo em 1994

Por Redação em 21/11/2020 às 17:53:02

Em 1994 a Globo exibia a novela "Pátria Minha", de Gilberto Braga, na faixa das 20h30.

A trama era protagonizada por Fábio Assunção, Claudia Abreu, Tarcísio Meira e Vera Fischer e tinha como meta tratar de assuntos como corrupção e ética. No entanto, um assunto 'roubou' os holofotes.

Uma cena polêmica foi exibida e causou diversos problemas para a Globo na época. Nela Raul Pellegrini (Tarcísio Meira), um inescrupuloso e rico empresário fazia diversos comentários racistas quando acusava o jardineiro Kennedy (Alexandre Moreno) de roubá-lo. Raul o chamava de "negro insolente" e fazia comentários com preconceito explícito: "Você pensa que eu acredito em crioulo? Vocês, Kennedy, quando não sujam na entrada, sujam na saída".


Alexandre Moreno e Tarcísio Meira na polêmica cena da novela "Pátria Minha" (1994)

Kennedy argumentava que não tinha cometido nenhum crime e a discussão continua. Kennedy então, tenta rebater o empresário relembrado que ele havia sido traído pela esposa (Eva Wilma): "Não foi à toa que ela não aguentou e corneou o senhor. E já não foi sem tempo: ela devia ter corneado muito antes. Se houver Justiça nesse mundo, dr. Raul, a outra vai cornear também."

A cena termina com Raul expulsando Kennedy do quarto aos gritos: "Negro sem vergonha. Vai se arrepender do dia em que nasceu. Negro!"

Veja a cena:


O jornal Estadão lembra os bastidores da novela onde Alexandre Moreno afirmou: "Fiz a cena com muita vontade de ser representante dessa denúncia. Ao mesmo tempo, pintou um certo constrangimento por estar ouvindo aquelas coisas." O ator também ressaltou a reação de seu colega durante a gravação: "O Tarcísio ficou desesperado, sofreu. A gente não parava de se abraçar".

A exibição da cena causou muita polêmica. Advogados chegaram a entrar na Justiça pedindo a suspensão de cenas que trouxessem "referências racistas". Segunda uma delas, a advogada Vera Lucia Vassouras, de São Paulo, a novela atentaria "contra a honra e a imagem dos cidadãos negros no País". O Núcleo de Consciência Negra da Universidade de São Paulo (USP) se manifestou: "Não adianta os autores da novela dizerem que queriam denunciar o racismo com aquela cena absurda, porque o negro da novela não está discutindo nada, está quieto, é vítima sem voz".

O autor Gilberto Braga, ficou pasmo com a reação negativa da cena e salientou que as acusações seriam precipitadas, por não esperarem o desenvolvimento da trama. Sobre as acusações de que em suas novelas os negros estariam sempre em condições sociais inferiores em relação aos brancos, Gilberto Braga respondia: "Essas críticas são injustas. Sou antirracista."

Diversos artistas se manifestaram à favor da cena, pois através dela, seria possível escancarar o tema e abrir uma discussão sobre o tema.


"Gilberto foi audacioso. As pessoas querem esconder quando um branco é preconceituoso, como o Raul, porque se negam a acreditar que ainda exista gente assim. Mas existe.", disse Clementino Kelé, que participava do elecco da novela.

"O racismo na nossa sociedade é bem pior. Entre patrão e empregado, nem se fala. O que o autor está fazendo só nos ajuda, porque leva as pessoas a se questionarem", afirmava Chica Xavier.


Fonte: Estadão

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