Durante a Ditadura, a Censura Federal proibiu novelas, afastou apresentadores e mudou diálogos de personagens! Veja o que aconteceu com grandes programas de TV

Por Rodrigo Felício em 08/09/2020 às 22:12:28
A primeira versão de "Roque Santeiro" foi proibida de estrear em 1975, causando um 'buraco' na grade da Globo

A primeira versão de "Roque Santeiro" foi proibida de estrear em 1975, causando um 'buraco' na grade da Globo

A nova geração não tem ideia dos momentos turbulentos que os brasileiros viveram durante a ditadura militar (1964-1985). Além de muitos mortos, presos políticos, o país viu a liberdade de expressão ser cerceada escancaradamente. Mesmo com o fim da Ditadura Miliar, a censura federal continuou, porem mais um pouco mais branda, até 1988.

Em Brasília existia um departamento oficial federal que ditava o que podia ou o que não podia ser falado, exibido ou produzido. Capítulos de séries e novelas precisavam ser enviados com antecedência para que os "censores" lessem e desse seu parecer (que sempre era o que prevalecia, aliás). Autores tinham que mudar diálogos, excluir palavras... algo surreal. Mas que faz parte da história da televisão no Brasil.

Falamos em uma das matérias da semana passada sobre os grandes festivais de música que aconteceram na última metade dos anos 60.

Os estúdios e teatros da TV Record e TV Globo eram palco de manifestações veladas. Cateano Veloso, por exemplo, durante o "Festival Internacional da Canção" (1968, TV Globo) cantava letras como da música "É Proibido Proibir" (inclusive com ele sendo duramente vaiado pelos bolsomínions... ops... pelo público).

Caetano Velloso é vaiado ao cantar a música "É Proibido proibir" no "Festival Internacional da Canção" na Globo em 1968

A novela "Beto Rockfeller" (1969, TV Tupi) e "Irmãos Coragem" (1970, TV Globo) conseguiram a façanha de "burlar" a censura com metáforas e tramas paralelas que podiam ter, por parte do público, uma segunda interpretação. Era o que dava pra fazer.

Olha só alguns casos onde a censura obrigou mudanças na TV:

- 1965, "O Direito de Nascer" precisou trocar de horário pois a personagem de Nathalia Timberg era mãe solteira;

"O Direito de Nascer" precisou mudar de horário porque a personagem de Nathalia Timberg era mãe solteira

- 1972, a censura proibiu o casamento do personagem de Francisco Cuoco e Dina Sfat na novela "Selva de Pedra". Isso porque ele era casado com a personagem de Regina Duarte. Apesar do personagem não saber que ela estava viva, a censura considerou que, o fato do público saber, poderia ter conotação de bigamia;

- 1973, o apresentador Flávio Cavalcante é proibido de apresentar programa de televisão por 60 dias depois que ele mostrou na atração o caso de um homem impotente que "emprestava" sua esposa para um amigo;

- 1973, no programa "Chico City" que recriava uma cidade e tinha diversos personagens interpretados por Chico Anysio, precisou alterar o cargo do personagem Valfrido Canavieira que era, originalmente, um político corrupto para um empresário corrupto. O Departamento de Censura alegou não haver prefeitos corruptos no Brasil. Nem mesmo naquela cidade fictícia.

- 1973, na novela "O Bem Amado", as palavras "coronel" usada em referência à Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo) precisaram ser retiradas do texto. Com capítulos gravados, a Globo precisou cortar o áudio nas pronúncias;

- A primeira versão da série "A Grande Família", no início dos anos 70, teve cenas cortadas;

- 1977, a personagem de Zelinda (Fátima Freire) na novela "Gina" não pode engravidar na história. Apenas depois de se casar com Afonso (Diogo Vilella);

- 1979, a TV Bandeirantes foi forçada a trocar os biquínis das Chacretes por maiôs no programa "Discoteca do Chacrinha".

Em nome da moral e dos bons costumes, os censores pediram para as Chacretes trocarem os biquínis por maiôs

Esses pontos todos são apenas para vocês terem uma noção de como era censura na TV.

O maior "estrago" da censura, no entanto, aconteceu em 1975. A Globo já estava gravando e anunciando a novela "Roque Santeiro" com Betty Faria e Lima Duarte. Os censores haviam aprovado sua sinopse, mas... depois descobriram que ela era baseada na peça "O Berço do Herói" que já tinha sido proibida no teatro nos anos 60. Não teve conversa: a novela foi proibida de estrear e as gravações foram suspensas.

Sem tempo de colocar nova história no ar, a Globo exibiu em seu horário nobre uma reprise (numa tática parecida com a que vêm utilizando atualmente por conta da Pandemia). Enquanto isso, Janete Clair era convocada para escrever uma nova história, às pressas. Nascia ali "Pecado Capital", que também foi sucesso de audiência.

Com o fim da Ditadura miliar, na metade dos anos 80, a Globo decidiu refazer a novela "Roque Santeiro", como forma de comprovar que os tempos eram outros. A trama, agora protagonizada por Regina Duarte e José Wilker se transformou num fenômeno. Chegou a incríveis 100 pontos no Ibope. Uma unanimidade nacional.

Pode-se dizer que a Censura como a vivida pela ditadura é coisa do passado. Mas a Televisão ainda continuou sofrendo golpes com decisões judiciais. A novela "O Marajá", produzida pela TV Manchete que trazia um sósia dele e teria uma trama com foco em corrupção foi proibida de estrear. Pior: as fitas que continuam os capítulos desapareceram.

- x –

Ao longo do nosso especial, você vai acompanhar aqui no "Memória da TV" muitas histórias legais, engraçadas e de sufoco que os profissionais da TV enfrentaram no início. E foi graças à eles que a TV foi se aprimorando e chega hoje na sua casa com essa qualidade incrível. CLIQUE AQUI E VEJA TODAS AS MATÉRIAS QUE PRODUZIMOS!

E olha:

Se gostou, compartilha nosso texto! E não deixe de nos seguir no Twitter e volte todos os dias no nosso site! Tem notícias do passado e atuais! Tudo num só lugar!

Comunicar erro

Comentários