O Segredo da Telenovela

Por Redação em 08/12/2020 às 08:04:29

Veículo: Jornal da Brasil
Data da Publicação: 02/04/1971
Autor: Valério Andrade
Título: O Segredo da Telenovela


Não é por acaso, ou simples coincidência, que a Globo vem monopolizando, em escala nacional, a rendosa indústria da novela.

No começo, e durante muito tempo, enquanto predominou a estrutura radiofônica, as demais emissoras reinaram absolutas. Não havia o que temer. Qualquer dramalhão fazia sucesso, ao mesmo tempo que, a exemplo do estrelismo cinematográfico, Ioná Magalhães e Carlos Alberto garantiam a colocação a priori da novela no quadro de honra do IBOPE.

Nada melhor exemplifica essa fase, cuja magia repousava no estilo da Rádio Nacional com um revestimento plástico meramente descritivo, do que o clímax de O Direito de Nascer.

Se cabe a Bráulio Pedroso a honra de ter elevado o nível intelectual da novela, inovando-a com a presença de Beto Rockefeller, também deve ser creditado à Globo o aprimoramento técnico da sua linguagem. E é aí, através do progresso tecnológico, que se descobrem as raízes do atual sucesso das novelas do Canal 4.

Em primeiro lugar - e isto é fundamental num meio de comunicação essencialmente visual - a aparelhagem da Globo leva ao vídeo uma imagem limpa, nítida, bonita de se ver. Em segundo, ainda em decorrência direta do seu parque tecnológico, foi possível romper com as limitações do estúdio, diversificar os ambientes, trocar os cenários de compensado pelos locais autênticos. Fugir para as ruas da cidade, revelando a fotogenia noturna, filmando em lugares conhecidos do público. Ou então - e isto se aplica aos Irmãos Coragem - conquistar o campo, dimensionando, na tela pequena, os grandes espaços já desbravados pelos westerns.

Mas isto não foi tudo. Ao poderio tecnológico e à libertação geográfica, outro fenômeno de igual importância verificou-se nas novelas produzidas pela Globo: a introdução da linguagem cinematográfica. Mais precisamente: a do cinema americano tradicional.

Através desse processo narrativo consagrado pelo uso, responsável pela universalização da linguagem hollywoodiana, completava-se o ciclo que possibilitou à emissora carioca conquistar e se fazer entender junto as grandes (e mais exigentes) platéias. Pois, hoje em dia, as novelas geradas pela usina do Canal 4 são fundamentalmente cinematográficas. Nelas, não há lugar para o rádio, nem para o teatro, apenas para o cinema - e isto é o máximo que a televisão pode alcançar.

Ainda se espelhando no cinema, e em particular nos esquemas de Hollywood, a Globo vem aplicando a política administrativa que, durante anos, imperou com absoluto êxito nos grandes estúdios. A fórmula exige bons técnicos, elencos diversificados, artesãos competentes, histórias de fácil comunicação, narradas com sofisticação e a dosagem de sal capaz de aguçar a curiosidade do público - e é sob esse ângulo que O Cafona desponta como o exemplar mais avançado, ilustrativo e audacioso da fábrica das novelas.