'A Deusa Vencida' - Capítulo 29: 'Mandingas'

Por Redação em 29/11/2021 às 18:59:00

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O navio respondeu ao apito do rebocador. Soltaram-se as últimas amarras e, lentamente, o grande barco se afastou do cais. Uma banda tocava, atiravam-se serpentinas, ouviam-se apitos, ordens gritadas, adeuses. Lenços e chapéus eram abanados. A amurada estava atulhada de passageiros; entre eles, Edmundo (Tarcísio Meira) acenava o chapéu para Malu (Glória Menezes) e Amarante (Ivã Mesquita). Malu chorava. Amarante estava impassível.

Alguns minutos após, o "Clyde", um dos grandes transatlânticos da Royal Mail, desaparecia na curva do canal. Amarante e Malu tomaram o trem junto ao cais, em frente à alfândega. A viagem de volta foi dolorosa para Malu. Edmundo tinha sido nos últimos meses um refúgio - servia-lhe de companhia, fazia às vezes de conselheiro, protegia a prima como se ela fosse sua irmã. Agora, Malu estava só, com Amarante e toda a sua avareza - os dias à frente seriam mais negros do que nunca.

Chegando em casa, algumas horas mais tarde, Malu encontrou a carta de Cecília (Glória Menezes). Abriu-a avidamente: dentro havia algumas folhas de papel e um envelope, destinado a Edmundo. Malu se arrependeu de ter aberto a carta perto de Amarante. Ele pegou o envelope, abriu-o, sem ligar ao olhar de censura de Malu e leu a carta. À medida em que ia se inteirando dos sentimentos de Cecília para com Edmundo, dava risadinhas de satisfação, até chegar ao ponto em que Cecília se dizia arrependida de não ter fugido no dia do casamento. Foi quando Amarante deu vazão a todo o ressentimento que tinha há anos contra Lineu Maciel (Altair Lima): ria, mostrava a Malu a carta, andava pela casa, relia trechos, tornava a dar gargalhadas - Malu nunca vira o tio assim: parecia um louco.

"Lineu Maciel... o barão...", entrecortava suas palavras com gargalhadas, "...o barão conquistador de mulherinhas... a filha saiu ao pai!... Tal qual o pai!... Casada com um... quer fugir com outro... Maciel precisa saber disto..."

Malu não tinha o que dizer nem sabia o que fazer. Só alguns minutos depois é que pode ler a carta que Cecília lhe escrevera. Pedia-lhe que entregasse o envelope a Edmundo e se confessava mais apaixonada que nunca por ele.

"Isto aqui é horrível, Malu! Não tenho companhia, sinto-me isolada do mundo, não converso com ninguém. Já li todos os livros que encontrei. A fazenda é totalmente isolada: não há vizinhos por perto e a vila fica a uns dez quilômetros... Meu único divertimento é cavalgar de vez em quando à beira do rio. Espero trazer Narcisa (Ruth de Souza) para cá o mais breve possível. Logo que Edmundo partir para a Europa, venha também ficar comigo. O ar do campo lhe fará muito bem. Vamos ter muito que conversar".

Telefonar não resolvia: Amarante tinha que mostrar a Maciel a carta de Cecília. Era o que ia fazer.

"Desejo falar com o senhor Maciel", disse ele à criada que o atendeu. "Ele está?"

Amarante não quis se sentar - estava nervoso, excitado: não era todo dia que se apresentava uma oportunidade como aquela! Maciel deveria corar de vergonha!

"Boa tarde, senhor Amarante, em que posso servi-lo?"

Maciel e Barreto (Agusto Machado de Campos) não esperavam boa coisa.

"Senhor Maciel, tenho a tratar um assunto de bastante gravidade... Talvez fosse melhor a sós com o senhor" - Amarante mentia: na presença de Barreto a conversa seria mais interessante para ele.

"Não tenho nada a esconder de Barreto", respondeu Maciel. "Ele é como se fosse da família... esteja à vontade."

Amarante estava à vontade. Tirou do bolso do paletó o envelope e o apresentou a Maciel, enquanto falava:

"Recebi hoje, após a partida de meu filho para a Europa, esta carta... felizmente meu filho não a leu..."

Maciel leu a carta. Sentou-se. As mãos tremiam. Passou a carta a Barreto. Maciel suava e começou a arquejar – era uma vergonha grande demais. Os olhos de Amarante brilhavam de satisfação - conseguira o que queria: humilhar Lineu Maciel, o barão. Despediu-se cinicamente:

"Julguei de meu dever, senhor Maciel, preveni-lo do que se passa; do mesmo modo, peco-lhe chamar a atenção de sua filha, para que ela não estrague o futuro de meu filho... Passe bem."

Barreto rasgou a carta e jogou os pedaços na cesta de papéis. Reanimou Maciel com um pouco de conhaque.

"Quanto mais conheço esse senhor Amarante, mais o detesto", disse Barreto, enquanto abria a vidraça da biblioteca, para entrar ar fresco. "Não há dúvida de que é anormal: estava se deliciando em humilhá-lo, senhor Maciel."

"Isto já vem de longe, Barreto... vem de muitos anos... e vai durar muito tempo ainda!!"

O telefone tocou e Barreto atendeu. Era Malu.

"Muito boa tarde, dona Maria Luiza", disse Barreto. "A senhora como está passando? Pois não... vou chamar Narcisa."

Malu estava dando as notícias de Cecília - queria saber quando Narcisa iria para a fazenda, para mandar notícias a Cecília e avisá-la do acontecido. Ficou decidido que Narcisa iria para a fazenda o mais cedo possível - Maciel e Barreto concordaram que a ida da criada faria muito bem a Cecília. Escreveram para a fazenda, pedindo a Fernando que mandasse alguém esperá-la na vila, na semana seguinte.

Cecília recebeu a notícia com alegria - companhia de Narcisa lhe daria novo ânimo para suportar a vida da fazenda. No dia marcado, Jacinto (Silvio Piratininga) estava na estação esperando por Narcisa. Foi fácil reconhecê-la, pela descrição de Cecília.

"Mecê deve ser Narcisa", disse Jacinto. "Pode me dar suas malas... a charrete está ali perto."

Narcisa não conversou durante o trajeto até à fazenda. De certo modo, partilhava do orgulho de Cecília – considerava pouco a gente simples do interior. Como Jacinto não a conhecia, pensou que talvez ela julgasse não ficar bem conversar com um estranho. Cecília mandara preparar um cavalo. Quando viu ao longe a charrete, montou e saiu em disparada ao encontro de Narcisa. Parou ao lado da charrete, apeou do cavalo e abraçou Narcisa, coisa que nunca fizera antes.

"Que bom que você veio, Narcisa, estou tão só... sinto tanta falta de companhia... tenho tantas saudades de nossa casa!"

Cecília se emocionou até às lágrimas. Narcisa também.

"Nunca mais Narcisa vai se separar da sinhazinha... Nunca mais!..."

Fizeram o restante do trajeto até à fazenda lado a lado, caminhando. Jacinto atrelou o cavalo de Cecília à charrete e seguiu na frente.

"Dona Cecília vem vindo a pé com Narcisa", explicou Jacinto a Vina (Raquel Martins) e Sofia (Maria Aparecida Alves), que estavam esperando. Levou as malas de Narcisa para dentro e foi ter com Fernando, do outro lado do rio.

"Dona Vina e Sofia", disse Cecília apresentando Narcisa. "Narcisa, a partir de hoje, vai substituir Candinha (Lourdinha Félix), que pode voltar ao serviço normal da casa. Narcisa cuida de mim desde que nasci..."

Sofia concordou e foi mostrar a Narcisa o quarto.

"Ao lado fica o quarto de Candinha... Se precisar de alguma coisa, fale com ela..."

A primeira mala que Narcisa abriu continha velas e, por incrível que parecesse a Sofia, uma garrafa de cachaça. Narcisa percebeu estranheza no olhar de Sofia e explicou atrevidamente:

"Vou tirar os maus espíritos da vida de sinhazinha... sei de umas rezas fortes que nunca falham... sinhazinha está infeliz... vai voltar a ser feliz como era... antes do casamento..."

"Aqui na fazenda ninguém acredita em feitiçaria. Todos nós somos católicos e não temos superstições. É bom você não praticar em público suas crenças para não impressionar os colonos: são gente muito simples."

Sofia sabia o que significava ter uma feiticeira na fazenda - Narcisa poderia causar muitos problemas desagradáveis.

"Sinhazinha Cecília também não acredita, mas nunca me proibiu de fazer as minhas rezas... além do mais eu só vou aceitar ordens aqui da dona da casa, que é sinhazinha... de mais ninguém!"

Em vista da disposição de Narcisa, Sofia procurou Cecília:

"Acabei de falar com Narcisa, Cecília; ela pretende fazer feitiçarias. Proibi-a de praticar as crendices dela publicamente para não impressionar os colonos, que são gente simples. Ela se recusou a me obedecer - diz que só recebe ordens de você. Por isso eu peço a você que não permita a prática de feitiçarias na fazenda..."

"Narcisa é inofensiva... nunca fez mal a ninguém", respondeu Cecília, defendendo abertamente Narcisa.

"Ela não faz mal a quem não acredita em feitiçaria... Mas a gente da fazenda é muito impressionável, principalmente as mulheres e crianças - e têm vivido muito bem até hoje, sem feitiços e mandingas. É melhor que continuem assim...



Continua...

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· Algumas imagens deste capítulo são cenas da novela;

· Capítulo extraído da coleção "Telenovelas Famosas" com original de Ivani Ribeiro, adaptado por Saveiro Jr.