'A Deusa Vencida' - Capítulo 25: 'O Casamento'

Por Redação em 23/11/2021 às 21:28:05

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Apesar de todo o seu temperamento extrovertido, Laércio (Hugo Santana) estava preocupado: nunca cantara para uma multidão como aquela... muito menos para uma multidão reunida dentro de uma igreja. O pedido de Fernando Albuquerque (Edson França) não podia ser recusado, por isso, lá estava ele, Laércio, o farrista, o boêmio, pronto para cantar no coro da igreja. Parado junto da janela cheia de vidros coloridos, Laércio viu quando dobrou a esquina a primeira carruagem, toda enfeitada de flor de laranjeira, trazendo Cecília (Glória Menezes) e Maciel (Altair Lima). Atrás, os outros carros dos convidados "uns trinta", calculou Laércio.

A igreja estava cheia de gente e fora havia mais pessoas que se esforçavam para entrar. Quando todos os convidados ocuparam os seus lugares, o órgão atacou a marcha nupcial e Cecília, levada pelo pai, se dirigiu para o altar, onde Fernando a esperava deu-lhe o braço e subiram juntos os degraus do altar, até ao genuflexorio.

O padre deu início à cerimônia. Começou falando sobre o Sacramento do Matrimônio e dos deveres e compromissos que os nubentes assumiam no momento "o marido será o pai, o amigo, o amparo e o abrigo da esposa, que o seguirá onde quer que vá, por toda a vida, partilhando das suas alegrias e das suas dores, até que a morte os separe".

Se alguém pudesse chegar bem perto de cada uma das pessoas que circundavam o altar e examinar-lhes as fisionomias e sondar-lhes os pensamentos, certamente teria uma grande surpresa. Aquele figurão do governo, que vez por outra distribuía sorrisos à esquerda e à direita, estava aborrecido com a cerimônia, desejoso de que ela tivesse fim; a senhora, a seu lado pensava, hipocritamente, se aquele casamento, cujo noivado não durara seis meses, não estaria escondendo alguma coisa; uma mocinha admirava o vestido da noiva; a outra, na idade de casar, censurava Cecília por aceitar Fernando Albuquerque, homem do interior, sem cultura; já uma terceira invejava a noiva; Maciel estava acabrunhado e se esforçava por parecer contente - acusava-se de entregar a filha por dinheiro, para sanar os males provocados por seus atos; Cecília e isto era o mais estranho - dominava a custo uma raiva difícil de conter, uma revolta contra as circunstâncias que a tinham levado até ao altar com Fernando Albuquerque, alvo de toda a sua repulsa; por fim, o próprio Fernando — olhar vago, triste parecia não ser o noivo, não ter nada a ver com o que se passava ao seu redor: o pensamento de Fernando Albuquerque estava longe dali; recordava fatos distantes... emoções passadas que lhe tinham transtornado a vida...

Quando o sacerdote iniciou as orações em voz baixa, ouviu-se do coro a voz bonita de Laércio, cantando: "Ave-Maria, gratia plena, Dominus tecum..." Barreto se surpreendeu com a interpretação do afilhado: Laércio punha toda a sua alma na oração, apagando com sua voz os sussurros da multidão que enchia a igreja.

Findara a cerimônia. Fernando levava Cecília pelo braço, até à carruagem enfeitada com flor de laranjeira, na qual Maciel trouxera a filha, que agora voltava com o marido. Iniciou-se o cortejo de volta à casa dos Maciel. Os convidados saíam na mesma ordem em que entraram, encontrando sua carruagem já à espera na porta da igreja. Era noite e as ruas estavam cheias de curiosos que já tinham deixado o trabalho e vinham admirar o cortejo de belas carruagens. Reuniam-se em maior número junto dos lampiões de gás, cuja luz lhes permitia ver melhor o desfile de convidados para a festa de casamento de Cecília Maciel.

A recepção foi feita no grande salão. Fernando e Cecília receberam os cumprimentos e se sentaram à ponta da mesa. Os convidados eram servidos pelos criados. Aos poucos as taças de champanha estrangeira animaram o ambiente: o silêncio formal do início da recepção foi desaparecendo, dando lugar ao alegre bulício das grandes reuniões, misturado à música alegre de uma orquestra, colocada ao lado da escada. Os pequenos discursos se sucediam, seguidos de brindes. De um lado, Fernando conversava com um ou outro conhecido; do outro, Cecília fazia o mesmo com amigas e senhoras de suas relações. Os dois recém-casados mal tinham tempo de trocar um olhar. As horas iam passando. Iniciou-se o baile, que entrou pela madrugada.

Maciel pediu licença aos amigos com quem conversava e subiu ao seu quarto - tinha uma surpresa para Cecília: o colar de ouro que pertencera à sua esposa passaria agora para a filha.

A porta do quarto estava aberta. Entrou e surpreendeu Narcisa (Ruth de Souza) colocando alguma coisa sob o travesseiro. A criada se assustou — não esperava que o patrão subisse ao quarto naquele momento.

Maciel percebeu algo de estranho no procedimento de Narcisa.

"Narcisa, o que você está fazendo em meu quarto? O que você pôs aí, sob o meu travesseiro?"

Narcisa tinha dificuldade para responder:

"Sinho Maciel... Sinhazinha mandou.."

Maciel empurrou Narcisa e levantou o travesseiro, sob o qual havia um envelope. Abriu-o. Narcisa tentou impedi-lo de ler o que estava escrito:

"Patrão.... sinh"zinha não quer que vosmecê leia agora... Sinhazinha vai ficar brava comigo... não leia, patrão."

Maciel não deu ouvidos à criada. Enquanto lia, deixou-se cair sentado na cama e Narcisa, pela primeira vez na vida, viu seu patrão chorar. Saiu às pressas e foi ter com Cecília.

"Sinhazinha" - Narcisa estava nervosa – "o patrão já sabe... já leu a carta... eu não tive culpa... fiz tudo como sinhazinha mandou, mas o patrão foi ao quarto dele e me viu... o patrão... está chorando!"

Cecília entrou no quarto do pai e fechou a porta.

Maciel, sentado na cama, dobrado para a frente, com as mãos no rosto, sacudia-se em soluços incontrolados. Mais uma vez Cecília se apiedou do pai. Achegou-se a ele, acariciou-lhe a cabeça, abraçou-o e enxugou as lágrimas que lhe corriam pelo rosto. Maciel se recobrou e, instantes depois, já podia falar.

"Cecília, minha filha... sei que só tenho trazido infelicidade a esta casa, humilhação para o nome Maciel, tristeza para você... mas, isto, Cecília..." - Maciel mostrava a carta — "... não faça isto, filha, pelo amor de Deus, não faça isto!"

Cecília continuava abraçada ao pai, chorando baixinho.

"Tenho sido mau pai, um dissipado, viciado no jogo, sei que não tenho o direito de pedir a você um sacrifício, sei que não tenho autoridade moral para aconselhar você, minha filha, a agir de um ou de outro modo, mas posso lhe dar minha palavra de que jamais fui infiel à sua mãe! Por isso eu lhe peço, filha, não fuja com Edmundo Amarante (Tarcísio Meira)! Siga seu marido! Não permita que mais essa desgraça se abata sobre nossa família!"

Fugir com Edmundo era o que estava decidido desde que Maciel tentara se matar. Cecília compreendera que, para salvar o pai, a única saída seria seu casamento com Fernando Albuquerque, o fazendeiro rico que restauraria com sua fortuna a economia abalada da família Maciel, recolocando-a no lugar de destaque que sempre ocupara na sociedade. Edmundo se opunha a princípio e Cecília levou horas para convencê-lo: depois de casada com Fernando, fugiria com Edmundo - pouco importava o escândalo! Fernando, que já teria saldado todas as dívidas de Maciel, que fizesse o que bem entendesse.

Durante os meses em que estiveram sem se ver, Narcisa e Malu (Regina Duarte) faziam às vezes de mensageiros entre Cecília e Edmundo. Malu, chocada a princípio, custara a acreditar que a amiga e o primo pusessem em execução um plano tão ousado. Com o passar dos dias, porém, embora a contragosto, levava e trazia recados, acertando detalhes do plano de fuga. Edmundo, sob o pretexto de se preparar para a viagem para a Europa, conseguia do pai pequenas quantias de dinheiro, que, somado ao que conseguia ganhar como tradutor de artigos científicos, permitiria aos dois começarem uma vida modesta em algum lugar fora de São Paulo. Por que fugir após o casamento e não um dia antes? Porque, pensou Cecília, após o casamento, havia a possibilidade de Fernando abrir mão de parte de sua fortuna para conseguir uma separação. Se assim acontecesse, Cecília deixaria Maciel em boa situação financeira; escreveria uma carta ao pai, que só tomaria conhecimento do fato após a fuga.

Àquela hora, Edmundo estava perto da casa de Lineu Maciel, escondido dentro de uma carruagem, que, aparentemente, esperava os convidados. Havia dezenas de carruagens paradas. Cecília deveria trocar de vestido e vir ter com Edmundo - nem o cocheiro a reconheceria no escuro. A bagagem, reduzida, já estava na estação tomariam o trem que ia para o norte, uma hora antes que saísse o outro no qual Fernando planejava viajar com Cecília, de volta à fazenda.

Maciel já estava mais calmo. Levantou-se, abriu uma gaveta do armário, tirou de lá um estojo, contendo o colar de ouro guardado cuidadosamente desde a morte da esposa. Sem dizer nada, aproximou-se de Cecília e lhe colocou no pescoço o colar. Por uns instantes ficou parado, olhando Cecília. Depois, recompôs-se e saiu do quarto, voltando para a festa.

Mal viu Maciel descer, Narcisa foi ter com Cecília e a encontrou triste e pensativa.

"Não vou mais", disse Cecília. "Avise Edmundo que não vou mais."

"Mas, sinhazinha... já está tudo preparado... "sinhô" Edmundo está esperando... sinhazinha precisa ir, não pode partir para o mato... lá sinhazinha vai ser infeliz! Ainda é tempo..."

"Já decidi, Narcisa, não vou mais. Vou acompanhar Fernando Albuquerque... meu marido... para a fazenda. Vá avisar Edmundo e diga a ele que sempre terá o meu amor! Jamais amarei outro a não ser ele!..."

Não havia o que discutir. Narcisa saiu pelos fundos e foi à procura de Edmundo, que já estava impaciente - se esperassem mais, perderiam o trem.

-x-

"Onde está Cecília? Precisamos partir já", disse Edmundo ao ver Narcisa.

"Sinhazinha não vem mais... mandou dizer pra mecê que não pode mais partir... "seu" Maciel descobriu tudo, sinhazinha ficou com pena dele... não vai mais fugir..."

Edmundo mal podia acreditar.

"Impossível, já está tudo planejado! Quero falar com Cecília! Va chamá-la!"

"Não adianta... Narcisa conhece sinhazinha... ela não volta atrás! Mas mesmo assim, Narcisa vai falar com ela... se ela não quiser vir, Narcisa dá um sinal: fecha a janela do quarto de sinhazinha."

Narcisa voltou para dentro de casa. Edmundo ficou de olhos na janela do quarto de Cecília. Esperou. De repente viu o vulto de Narcisa surgir à janela... e fechá-la. Deu ordem ao cocheiro para levá-lo para casa.


Continua...

Não perca a próxima parte deste grande sucesso da TV, a novela "A Deusa Vencida", de Ivani Ribeiro. Capítulos todos os dias (de segunda à sexta), às 19h.

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· As imagens deste capítulo não são cenas da novela;

· Capítulo extraído da coleção "Telenovelas Famosas" com original de Ivani Ribeiro, adaptado por Saveiro Jr.