'A Deusa Vencida' - Capítulo 20: 'O Baile de Cecília'

Por Redação em 16/11/2021 às 19:00:00

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E Barreto (Augusto Machado Campos) estava sendo sincero.

O fato de estar tramando o rompimento ou a separação de Cecília (Glória Menezes) e de Edmundo (Tarcísio Meira) não representava uma traição, aos olhos de Barreto. Sua função de procurador da família, acrescida das responsabilidades que Maciel (Altair Lima) aos poucos lhe passara, dava-lhe autoridade moral para agir de modo a preservar o nome e o prestígio dos Maciel, o que às vezes o obrigava a jogadas arriscadas e astuciosas. Separar Cecília e Edmundo? Eram jovens, podiam esperar uns meses. Se o amor fosse verdadeiro, resistiria. Caso contrário, melhor para os dois. Quanto a introduzir Fernando Albuquerque (Edson França) na família Maciel, nada mais normal — era um moço empreendedor, bem conceituado e rico, à altura da posição social de Cecília, embora não fosse um homem diplomado. Dera, porém, evidentes sinais de boa educação e de uma cultura muito acima daquilo que geralmente se espera de um fazendeiro. Sabia fazer

amigos e cativava as pessoas pela sua espontaneidade - ali estava a prova: Fernando Albuquerque, numa roda de banqueiros, industriais e comerciantes, autoridades e intelectuais, perfeitamente integrado no mundo da alta sociedade.

Sucesso absoluto, o aniversário de Cecilia - Lineu Maciel estava revivendo os tempos faustosos: abrira mão de boa quantia do dinheiro depositado no banco; queria dar a Cecília uma festa da qual ela jamais se esqueceria. Talvez fosse a última festa – mais uma razão para ser uma grande festa. A prodigalidade do pai surpreendera Cecília, assim como o número de convidados. Ficara ligeiramente aborrecida quando, recebendo as pessoas que chegavam, juntamente com o pai, foi anunciado o nome de Fernando Albuquerque, a quem Cecília tratou com a mesma frieza já demonstrada no teatro, o que Fernando parecia não perceber ou não saber interpretar: um sorriso seco, uma ligeira vênia e depois um olhar vago para os lados.

A chegada de Edmundo apagara o aborrecimento de Cecília. Vinha acompanhado de Malu (Regina Duarte) — Amarante (Ivã Mesquita) não pudera vir e pedia desculpas. Malu trouxe flores e Edmundo deu a Cecília um embrulho, que ela disse querer abrir juntamente com o noivo, mais tarde – uma criada uniformizada recebia os presentes e os deixava na biblioteca. Depois que a maioria dos convidados tinha chegado, a orquestra atacou uma valsa e os pares foram se formando no meio do salão. Em poucos minutos o baile se animou e Cecília teve que atender a vários pedidos de dança, entremeando uma ou outra com Edmundo.

Quando, a orquestra recomeçou, depois de um curto intervalo em que os convidados se refrescavam com uma taça de champanha francesa gelada, Fernando aproximou de Cecília, aproveitando um momento em que ela estava desacompanhada — era a oportunidade que ele procurava:

"Dona Cecília, a senhora me dá a honra e o prazer desta dança?"

Cecília olhou-o séria e recusou:

"Perdão, senhor, mas estou muito cansada."

Virou-lhe as costas e se dirigiu para a biblioteca. Maciel e Barreto presenciaram a cena

e trocaram olhares — o de Maciel parecia querer saber se Barreto ainda insistia na ideia de um casamento de Cecília e Fernando Albuquerque.

Fernando voltou à roda de amigos e pouco depois se despedia de Maciel e Barreto.

"Magnífica festa, senhor Maciel. Sinto ter que sair já – amanhã cedo tenho que voltar à fazenda..."

"Foi uma honra tê-lo em nossa casa, senhor Fernando. Venha nos visitar sempre que vier a São Paulo. Será um prazer recebê-lo."

"Muito obrigado. Senhor Barreto..."

"Eu o acompanho até sua carruagem, senhor Fernando.'

Barreto saiu com Fernando. Tentou explicar o procedimento de Cecília.

"Senhor Fernando... quanto à recusa de Cecília... talvez ela, como noiva de Edmundo Amarante, não tenha achado conveniente dançar com outro moço..."

"Compreendo, senhor Barreto, compreendo."

Barreto se esforçava para ser prestativo e apagar na mente de Fernando a má impressão da visita à casa dos Maciel.

"Senhor Fernando, casualmente vim a saber que o senhor faz visitas a alguém internado na Casa de Saúde Santa Anastácia. Se eu puder ser útil de alguma maneira, disponha deste seu amigo. O senhor sabe — levar roupas, frutas..."

"Fico muito agradecido, senhor Barreto, mas já não preciso mais fazer visitas à Casa de Saúde... não vai ser mais necessário... Dentro de alguns dias estarei de volta a São Paulo. Eu lhe telefonarei. Boa noite."

Fernando entrou na carruagem, que se dirigiu para o Grande Hotel. Barreto voltou para a festa a casa toda iluminada, as carruagens luzentes, puxadas por soberbas parelhas de cavalos, cocheiros uniformizados, casais passeando pelo jardim Barreto andava absorto e alheiado a tudo. Ao chegar perto da casa, pôde ver, através da janela da biblioteca, Cecília e Edmundo — ela examinava os presentes que Edmundo abria, tendo o cuidado de ler os cartões que os acompanhavam.

"Aquele eu quero ver por último", brincou Cecília apontando o embrulho que Edmundo lhe trouxera. "Quero que seja a última surpresa!"

Edmundo passou a Cecília um cartão e ia abrir uma pequena caixa quando ela o interrompeu:

"Edmundo, esse não! Não o abra — vou devolvê-lo!"

"Devolver um presente de aniversário? Mas, por que?"

"É de Fernando Albuquerque um caipira atrevido que anda tentando me cortejar... coisa do senhor Barreto. Já me mandou flores antes..."

Edmundo se chocou com as palavras de Cecília.


"Cortejar você? Mas ele não sabe que você já é noiva?"

"Finge que não sabe ou não se importa... Quando ele me mandou flores, dei ordens a Narcisa para devolver mas o senhor Barreto, pelo visto, não o permitiu, do contrário Fernando Albuquerque não teria vindo aqui hoje. Vou falar com papai para que ele ponha um paradeiro nisso imediatamente... Edmundo, precisamos nos casar... às vezes chego a ter medo, vergonha... quase me desespero!

Desaparecera a alegria do rosto de Cecília. Ela se achegou a Edmundo, como a procurar proteção. Edmundo lhe pegou as mãos e falou, olhando bem nos olhos de Cecília:

"Meu amor, não há nada que eu deseje mais na vida do que casar-me com você, tê-la ao meu lado todas as horas do dia, fazê-la feliz! Ninguém impedirá nosso casamento, jamais! Fomos feitos um para o outro... você é tudo o que eu quero! As coisas já começam a melhorar... papai permitiu que eu vá terminar os estudos na França mais alguns meses e eu volto formado! Então poderemos nos casar! Eu estava ansioso para dar a você a notícia...

Cecília pareceu se entristecer mais ainda.

"Oh, Edmundo, você se vai justamente quando eu mais sinto necessidade de você... não sei como vou conseguir ficar só tanto tempo!..."

"Quem disse que você vai ficar só?". Edmundo fez uma expressão marota, intrigando Cecília. Pegou o embrulho que trouxera, abriu-o e mostrou à noiva o seu presente: um porta-jóias dourado.

"Abra", disse Edmundo, aguardando a reação de Cecília.

Quando a tampa foi levantada, ouviu-se uma valsa, da caixinha de música embutida no porta-jóias. Na tampa, uma fotografia de Edmundo.

"A nossa primeira valsa", exclamou Cecília, emocionada. "Edmundo, que ideia feliz você teve... nossa valsa e sua fotografia O meu melhor presente!"

Cecília beijou carinhosamente Edmundo.

"Vou ter sempre o seu presente junto da minha cabeceira. Quero adormecer e acordar

ouvindo nossa música e olhando seu retrato. Quando você parte?"

"Ainda não estou bem certo, mas talvez leve uns dois meses — o ano letivo na Europa é desencontrado do nosso..."

"Edmundo, você ainda não me falou sobre seu pai... ainda continua contrário ao nosso casamento?"

"Está irredutível... mas, não importa! depois que me formar não dependerei mais dele. Ganharei a vida por mim mesmo. Não vou permitir que nos separem, Cecília! Estou disposto a qualquer coisa para evitá-lo!

Narcisa entrou esbaforida:

"Sinhazinha, ela desmaiou... Sinha Maria Luiza! Está no seu quarto..."

Edmundo e Cecília se entreolharam.

"Malu... que foi que houve, Narcisa?"

"Não sei, sinhazinha. Ela rodopiou e caiu. Seu Maciel levou o doutor Vieira. . . por sorte ele estava na festa!"

Cecília subiu às pressas para o quarto.

"Malu, que é que você têm?"

"Apenas um desmaio, dona Cecília", respondeu o doutor Vieira. "Dona Maria Luiza deve ter dançado demais."

"Já estou bem, Cecília... desculpe o susto que lhe dei..."

Malu estava recostada no travesseiro, pálida, mas se esforçava por sorrir.

"É aconselhável a senhora tomar um dos comprimidos que lhe receitei. Mande buscá-los em casa. Tome um, repouse um pouco... depois pode se levantar."

"Fique sossegada, Malu. Vou pedir a Edmundo que vá buscá-los."

Cecília desceu e conversou com Edmundo. Para ganhar tempo, decidiram telefonar e pedir a Amarante que trouxesse o remédio. Cecília subiu ao quarto para fazer companhia a Malu e cruzou na escada com o doutor Vieira e Maciel, que levara o médico ao quarto da filha. Enquanto descia a escada, doutor Vieira já tranquilizava os convidados com sorrisos e acenos de mão, dando a entender que não era nada. E o baile recomeçou. Pouco depois, chegava Jorge Amarante, acompanhando o filho, que tinha ido esperá-lo fora. Cumprimentou com acenos de cabeça os convidados mais próximos. Maciel veio recebê-lo.

"Boa noite, senhor Amarante. É um prazer recebê-lo em minha casa. Lamento apenas as circunstâncias que o trouxeram..."

"Maria Luiza tem pouco juízo — está doente e teimou em vir ao baile. Eu quis impedi-la, mas ela está saindo ao primo: insistiu, mesmo contra a minha vontade... a juventude de hoje não obedece aos mais velhos..."

Amarante deixava claro que estava fazendo insinuações a respeito de Edmundo. Maciel compreendeu. Levou Amarante até ao quarto de Cecília e o deixou com a filha e Malu.

"Se você tivesse seguido meu conselho, não teria acontecido isto", disse Amarante para Malu, enquanto tirava do bolso o vidro de comprimidos. "Teimou em vir dançar, apesar de doente como está... tenho gastado um bom dinheiro com os seus remédios e tenho o direito de esperar colaboração, já que obediência eu não tenho nem de você, nem de Edmundo..."

Amarante olhou significativamente para Cecília - continuava com as insinuações. Cecília se sentiu ofendida e respondeu seco:

"Se o senhor se refere ao meu casamento com Edmundo, fique certo de que não adiantará nada se opor: nós vamos nos casar. Não vou permitir que os atos de meu pai nos prejudiquem... não sou responsável por eles!

"Nem meu filho", foi a resposta dura de Amarante.



Continua...

Não perca a próxima parte deste grande sucesso da TV, a novela "A Deusa Vencida", de Ivani Ribeiro. Capítulos todos os dias (de segunda à sexta), às 19h.

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· Algumas imagens deste capítulo são cenas da novela;

· Capítulo extraído da coleção "Telenovelas Famosas" com original de Ivani Ribeiro, adaptado por Saveiro Jr.