'A Deusa Vencida' - Capítulo 03: 'Cecília...'

Por Redação em 22/10/2021 às 19:00:00

Começava a clarear.

Um a um os lampiões das ruas iam sendo apagados. Maciel pediu ao cocheiro que o levasse para casa. A carruagem cruzava com os bondes apinhados de operários e caixeiros que iam abrir as lojas, mulheres que saiam das igrejas, leiteiros, verdureiros e vendedores.

Atravessaram o Viaduto do Chá e as rodas da carruagem produziam no madeirame do Viaduto um ronco contínuo, ritmado pelo trote dos cavalos. Tomaram a direção dos Campos Elísios, para onde seguiram pela rua Rio Branco. A residência de Maciel era a última casa, após os Campos Elísios. Situada em meio a uma vasta área ajardinada, dava entrada pela própria rua Rio Branco. Sendo uma das construções mais imponentes da cidade, não havia quem não a conhecesse.

A carruagem transpôs o portão e se aproximou da entrada principal da casa. Ao descer, Maciel se sentiu momentaneamente ofuscado pela claridade. Aturdido ainda, não pagou o cocheiro que fez menção de lembrá-lo e se conteve a tempo — receberia outra hora. Subiu os poucos degraus à sua frente e viu a porta abrir-se e aparecer Barreto. Não o cumprimentou. Percebeu censura no olhar do procurador. Atravessou o salão e começou a subir as escadas.

"Senhor Maciel...", tentou Barreto.

"Agora não".

"Mas é importante..."

"Já disse: agora não!"

"Mas eu preciso de uma decisão já!"

Como resposta, Barreto ouviu o ruído de uma porta que se fechava violentamente. O bater da porta acabou por despertar Cecília (Glória Menezes).

"O dia deve estar lindo", deduziu ela ao perceber a claridade que invadia o quarto através das venezianas e cortinas. E, num instante, recordou os planos para o dia que se iniciava: às nove horas, "caça à raposa", em companhia de Edmundo Amarante (Tarcísio Meira).

Tocou a campainha e aguardou a entrada de Narcisa (Ruth de Souza). Havia anos que era a mesma coisa: era só tocar a campainha e Narcisa corria pressurosa, pronta a satisfazer a vontade da sinhazinha. Nascida escrava, após a libertação, Narcisa perdera os pais ainda menina e fora recolhida e criada na casa de Lineu Maciel, tornando-se ama-seca de Cecília, a quem se afeiçoara.

Narcisa entrou, dando início ao ritual de todos os dias:

"Bom dia, sinhazinha. Mecê dormiu bem?"

E continuou:

"O dia hoje está uma lindeza."

Se o dia estivesse feio, seria "uma tristeza". Abriu as cortinas e as venezianas e uma aragem fresca, primaveril, invadiu o quarto.

"Narcisa, quero tomar o café na cama."

"Já, já, sinhazinha, não demoro."

Narcisa foi à cozinha buscar a bandeja e em poucos minutos estava de volta, com um bule de café fumegante, em meio a pães frescos, biscoitos, leite e geleia de frutas.

Terminada a refeição, Cecília como se aprontar para a "caça à raposa".

"Narcisa, mande preparar os cavalos. Vou sair às nove horas. Edmundo deve chegar às oito e meia. Hoje temos "caça à raposa".

Narcisa reagiu rápido:

"A mocidade de hoje tem cada coisa! "Caça à raposa"! Onde já se viu! Mecê precisa tomar cuidado pra não cair do cavalo!

"Narcisa..."

Cecília sabe que se não a interromper, Narcisa vai continuar imaginando coisas e não pára de falar, fazendo conjecturas e previsões, terminando com a conclusão já surrada: o mais seguro é mandar "fechar o corpo" pra não acontecer nada de ruim e evitar o mal feito das pessoas invejosas.

"Para mim, o Tufão, com o arreio novo; para Edmundo, o Estrela Branca. Edmundo gostou muito de montá-lo da última vez.

Narcisa sai. Cecília vai até à janela, respira fundo e começa a se vestir.


Continua...

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· As imagens deste capítulo são cenas da novela;

· Capítulo extraído da coleção "Telenovelas Famosas" com original de Ivani Ribeiro, adaptado por Saveiro Jr.